
Para mim o cinema está dividido em 3: ET, Pulp fiction e Matrix. Ambos tiveram grande impacto em minha vida.
Recordo-me com alegria do momento em que, no cinema, ouvi o próprio serzinho de outro planeta abraçar a pequena garotinha no bosque e soltar uma palavra sem significado: “ouch”, e ir embora com aquela linda música subindo. Pulp fiction veio depois somente para me mostrar que o cinema não precisava de um roteiro simples, tipo início, meio e fim. Matrix veio então e me mostrou que havia um mundo desconhecido nas telas. Havia muito mais do que aquilo, havia uma discussão antiga, meio George Orwell, sobre o bem e o mal, sobre o que vive acima e o que vive embaixo. Tudo isso me fez entender muitas coisas.
Aprendi a analisar filmes como ninguém. Vejo as câmeras subindo, descendo, a música entrando, abaixando, vejo cortes de cena, diálogos cortados por sons estranhos, vejo câmeras rápidas, lentas, vejo até o filme me emociono.
Com tudo isso aprendi também a criar meu próprio filme, o filme da minha vida.
Com um simples roteiro, que carinhosamente chamarei de resoluções do ano, faço um mini texto de como as coisas devem sair. Em seguida projeto os personagens, aqueles que farão o filme comigo. Alguns deles tomam espaço de coadjuvantes importantes, com direito a indicações ao Oscar, outros fazem papel de vento, vestindo-se de cinza e correndo de um lado para o outro. Há também aqueles que se vestem de árvore, ficando lá, paradinhos e os que entram na cena um e simplesmente somem.
Após delicado estudo dos personagens parto diretamente para a escolha do cenário, que pode ser pequeno, grande, não importa, mas precisa refletir a natureza da história que irei contar de mim mesmo. Já vi roteiros em um quarteirão grandiosos, já vi roteiros espaciais que foram pequenos.
A trilha sonora tem que ser de primeira, contanto com clássicos do soul, blues, pop, rock, músicas globais, óperas e músicas clássicas. Algumas canções românticas chegam para embalar aquela cena que não fica bem sem uma musiquinha.
As câmeras são importantes, portanto nesse filme imagino-as por todas as partes, como se me vigiassem o tempo todo, meio “Show de Truman”, mas com a diferença de que sei que elas ali estão.
O enredo precisa ter o mote, o acontecimento que coloca em cheque a felicidade do final para criar clímax e todo o desenrolar. O final, assim como o começo e o meio, precisa ser feliz, daí o conceito de um filme de total felicidade.
O vilão pode ser desconhecido, invisível, pode ser até um “eu mesmo” contracenando contra o seu próprio eu. O que importa é que no final, no meio de tantas batalhas, choros, risos, amores, corridas, todas as pessoas entendam que de nada adiantaria tudo aquilo se não houvesse no final um “continua”.
Esse “continua” sempre nos deixa com uma pulga atrás da orelha, com uma vontade de ver a continuação, de entender como será feito.
Se George Lucas pode, eu também. E não precisarei nem invadir outros planetas para isso. Essa Terra já é grande demais.
Grande demais para um só filme, grande demais para um só diretor, mas pequena demais para uma história tão linda quanto a que quero contracenar sobre mim mesmo.
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